Em março de 2026, a WIPO publicou os números consolidados do Patent Cooperation Treaty (PCT) para o ano de 2025 — e os dados contam uma história clara sobre para onde o mundo está direcionando seus esforços de inovação. Foram 275.900 pedidos internacionais de patente, um crescimento de 0,7% sobre 2024, marcando o segundo ano consecutivo de alta.
Mas por trás desse número agregado, há movimentos tectônicos em curso: a Ásia consolidando sua liderança, tecnologias digitais dominando o portfólio global de inovação, e um silêncio eloquente sobre a participação brasileira.
O Ranking: China na Liderança, Tradicionais em Retração
O dado mais impressionante do relatório é a continuidade do avanço chinês. Com 73.718 pedidos, a China cresceu 5,3% e responde por mais de um quarto de todos os pedidos PCT do mundo. Os Estados Unidos, com 52.617 pedidos, caíram 3,0% — o quarto ano consecutivo de declínio. O Japão (47.922, −1,0%) e a Alemanha (16.441, −1,8%) também registraram contrações, ambas pelo terceiro ano seguido.
| País | Pedidos PCT 2025 | Variação vs 2024 |
|---|---|---|
| China | 73.718 | +5,3% |
| EUA | 52.617 | −3,0% |
| Japão | 47.922 | −1,0% |
| Coreia do Sul | 25.016 | +4,9% |
| Alemanha | 16.441 | −1,8% |
A Coreia do Sul merece destaque à parte: com 25.016 pedidos e crescimento de 4,9%, o país estendeu sua trajetória ininterrupta de crescimento por 28 anos. Enquanto as economias maduras oscilam, a Coreia continua expandindo seu portfólio de PI com consistência quase maquinal.
O Que Está Sendo Patentado: Digital Communication e Semicondutores
A distribuição por campo tecnológico confirma a centralidade do setor de TICs. Comunicação digital lidera com 11,1% de todos os pedidos publicados, seguida por tecnologia da computação (9,6%), máquinas elétricas (9,0%), tecnologia médica (6,3%) e produtos farmacêuticos (4,3%). Juntas, essas cinco áreas representam pouco mais de 40% do total.
O crescimento mais expressivo, no entanto, veio de duas frentes: comunicação digital e semicondutores, ambos com alta de 6,1%. O dado de semicondutores é particularmente revelador em um momento de reconfiguração das cadeias globais de suprimento e de investimentos maciços em fabricação de chips nos EUA, Europa e Ásia.
A declaração do Diretor-Geral da WIPO, Daren Tang, conecta os pontos: “AI is the latest engine of this growth and will increasingly transform how we innovate.” A inteligência artificial não é apenas mais um campo de patenteamento — ela está se tornando a infraestrutura que acelera a inovação em todos os demais setores.
Huawei e o Domínio Corporativo da Inovação
Entre as empresas, a Huawei Technologies manteve a liderança absoluta com 7.523 pedidos publicados, uma posição que ocupa desde 2017. Samsung Electronics (4.698), Qualcomm (3.227), LG Electronics (2.400) e Contemporary Amperex Technology (2.203) completam o top 5.
Um dado revelador: 16 das 20 maiores depositantes são empresas de TIC. As quatro exceções — Contemporary Amperex Technology, LG Energy Solution, Mitsubishi Electric e Bosch — atuam em energia, indústria e automotivo. A inovação global está, cada vez mais, concentrada em empresas de tecnologia digital.
Fora do top 10, a entrada da indiana Jio Platforms com impressionantes +971 pedidos adicionais em relação ao ano anterior sinaliza que a Índia está emergindo como um player relevante no sistema PCT. Nokia Technologies (+470), NTT Docomo (+459) e Beijing Zitiao Network Technologies (+373) também subiram posições.
Onde Está o Brasil?
Este é o ponto que mais interessa a quem acompanha a política de inovação brasileira. O Brasil não aparece entre os 5 maiores depositantes do PCT, nem sequer é mencionado no relatório de imprensa da WIPO — o que, por si só, já é um dado relevante.
Estimativas de anos anteriores colocam o Brasil na faixa de 500 a 600 pedidos PCT por ano, o que o situaria ao redor da 18ª-20ª posição global — atrás não apenas dos gigantes asiáticos e ocidentais, mas também de países como Índia, Singapura, Rússia, Austrália e até mesmo Israel e Finlândia. Para efeito de comparação, a China sozinha deposita o equivalente a mais de 100 vezes o volume brasileiro.
Esse hiato não é apenas um número. Ele reflete:
- Baixa intensidade de P&D empresarial — as empresas brasileiras investem proporcionalmente menos em pesquisa que suas concorrentes globais
- Concentração setorial — a pauta de patentes brasileiras é fortemente concentrada em petróleo e gás (Petrobras), mineração (Vale) e agronegócio (Embrapa), setores com menor densidade de patentes PCT
- Baixa internacionalização — o sistema PCT é o principal veículo para proteger invenções em múltiplos países; a baixa adesão brasileira indica que empresas brasileiras inovam pouco para o mercado global
O contraste com a Índia é instrutivo. Ambos os países tinham posições similares há 15 anos. Enquanto a Índia criou condições para que empresas como Jio Platforms emergissem como depositantes PCT de classe mundial, o Brasil permanece estagnado nesse indicador.
O Que Esperar para os Próximos Anos
A trajetória dos dados sugere algumas tendências consolidadas:
- A Ásia (China + Coreia) continuará ampliando sua participação no sistema PCT, impulsionada por empresas de TIC e semicondutores
- A convergência entre IA e patenteamento deve acelerar — não apenas como campo de patenteamento (patentes de IA), mas como ferramenta para acelerar a própria produção de inovação patenteável
- Países como Índia e Finlândia devem continuar ganhando espaço, enquanto economias maduras oscilam
Para o Brasil, a pergunta que fica é: o que será necessário para que o país saia da inércia de 500 pedidos PCT anuais? A Nova Indústria Brasil (NIB) prevê metas de inovação, e o INPI vem avançando em digitalização e redução de backlog. Mas a tradução dessas políticas em patentes internacionais — que é onde a inovação brasileira é medida no cenário global — ainda não apareceu nos números. Qual será a ferramenta - ou conjunto de ferramentas - que poderá ser utilizada para mudar essa trajetória?
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